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Entrevista com Mestre Julio

2019-10-08T10:42:15+01:00février 24th, 2016|Batucada, Brésil, Capoeira, Julio Bomfim, Maculelê, Percussions, Spectacle|

Toulon – Janseline Quilichini

Começo hoje uma série de entrevistas com Brasileiros ou Franceses que divulgam a arte e a cultura brasileiras no Sul da França. Tenho a honra de começar com JULIO BOMFIM, mestre de Capoeira.
Em 1994, fundou a primeira Associação de Capoeira na “Provence”. É também o organizador do Encontro Internacional de Capoeira no Var, que acontece todos os anos, há 14 anos.
Sua associação, “Associação Samambaia Capoeira” (Grupo Batakorin), desenvolve diversas oficinas: – Capoeira, Makulelê – Cantos – Percussão brasileira.
Mestre Julio Bomfim espera desenvolver ainda mais sua arte, no intuito de promover a integração social, mas também o desenvolvimento cultural e desportivo da Capoeira, na França.

Em primeiro lugar, gostaria que você se apresentasse:
Me chamo Julio Bomfim, sou mestre em Capoeira. Venho da Bahia, cheguei em 93 na França, moro no Sul da França.

Você poderia falar um pouco das origens da Capoeira ? Como ela chegou no Brasil ? Em que consiste esta prática ?
Capoeira vem do reino do Kongo, dos Bantus, de Moçambique, e outras regiões africanas, é a mãe de todas as artes marciais. Seus movimentos são inspirados nos animais. Capoeira é filosofia de vida.
A Capoeira vem da Africa e de africanos livres, este argumento de que ela vem de escravos e que nasceu no Brasil, faz parte de um esquema colonialista de lavagem cerebral, para consolidar o controle sobre o presente das pessoas, e de ideologias eurocentricas, eliminando todo passado e traço indentitário do povo afro-descendente, seja através da religião, da cultura ou da história.

Existe uma diferença entre a capoeira praticada na França ou na Europa e aquela praticada no Brasil ?
A Capoeira é só uma, o Berimbau lança o ritmo da vadiação, porém cada praticante tem sua particularidade, estilo, e a Roda é um espaço livre onde cada capoeirista se manifesta, evolui e exprime sua capoeira, através de valores e fundamentos inerentes a mesma : ritmo, harmonia, respeito, ritual, coragem, liberdade, malandragem, ginga, improvisação, unidade.

Nas artes marciais em geral existe uma filosofia, é assim também para a Capoeira?
Se sim, qual seria esta filosofia ?

A Capoeira não representa só uma bandeira, a Capoeira está no mundo, e manifesta uma (várias) indentidade(s) que vai (vão ) além do princípio moderno de nação, país, fronteiras políticas, economicas, e falsas democracias discriminatórias, racistas e segregacionistas a nível educacional, e ambiental. Ela manisfesta a cultura e valores educativos do povo afro-descendente, através também de todos aqueles, independente de país ou cor, que se indentificam realmente com estes valores. Na Roda de Capoeira todos são iguais com suas diferentes características, a vadiação refletindo a personalidade, experiências de cada um, e todos compartilham uma só roda, com reverência, alegria, unidade.

Quando a Capoeira surgiu na sua vida ?
A Capoeira na Bahia faz parte do cotidiano, porém após assistir uma demonstração em praça pública aos 12 anos durante férias escolares, me senti, me descobri (me revelei) capoeirista e decidi entrar em uma academia de Capoeira.

Você já pensou o que você faria se não fosse mestre em Capoeira, se a Capoeira não existisse na sua vida ?
Se nao fosse um capoeirista seria cantor, atleta, poeta, artesão, vadio, um artista, percussionista, um ator, ”historiador”, ” embaixador cultural”, um dançarino, um acrobata, lutador. Como a capoeira reúne tudo isto então fica mais prático.

O que a Capoeira transmite do Brasil, do povo Brasileiro ?
A Capoeira transmite a história do Brasil, do povo Negro, dos heróis da liberdade Zumbi dos Palmares, Ganga Zumba, revolta dos Malês, João Candido( Almirante Negro), Besouro Manganga, Mestre Pastinha, Mestre Bimba, Mestre Waldemar e muitos outros exemplos de luta pela liberdade e da diáspora africana, história feita de resistência, de identidade, cultura, valores e preservação da integridade. Ela também interagiu com os índios, ciganos, judeus, marinheiros e imigrantes pobres exilados ou refugiados no Brasil. A Capoeira Angola tem um papel bastante importante na resistência dos valores e identidade da Capoeira, no Brasil e no mundo.

Qual é a recepção que os franceses têm da Capoeira ? Como ela é vista aqui ?
Muitos franceses se identificam realmente com a Capoeira, outros tentam se apropriar da mesma, outros tentam fazer dela seu business, ou status de diferenciação aparente. Outros dão mais credibilidade a capoeiristas brancos ou capoeiristas franceses de cor e olhos claros. Isto aconteceu no Brasil, com a expansão do grupo Senzala no Rio, onde a maioria dos mestres, auto-entitulados, eram jovens de classe média, estudantes brancos, bem nutridos, com maior aceitação pela sociedade racista no Brasil da época, enquanto que mestres negros na Bahia (Mestre Bimba, Mestre Pastinha e outros), morriam sem alunos e na miséria.

Porquê você aconselharia a prática da capoeira ?
A Capoeira libera o praticante de todas as formas de prisões que o sistema, a sociedade pós-colonial tenta nos impor, preconceitos, medo do julgamento do outro, complexos, limitações da espontaneidade, da auto-estima, do auto-conhecimento, da liberdade, criatividade. Tendo a música, percussões, capoeiristas, como motivadores, através de cantos ensopados de mensagens, conselhos, intergeracionalidade, axé, com uma interatividade, e relação de vivências, reverenciando o passado vivo no presente, e celebrando o presente, o tempo muitas vezes, parece parar para viver esta energia transcedente, que atravessa gerações e mais gerações, e que resistiu a 400 anos de escravidão.

O que você gostaria que a Capoeira veiculasse como mensagem, imagem, do Brasil, de nós Brasileiros ?
O Mestre de capoeira traz consigo história, valores da cultura afro-brasileira em suas diversas manifestações ; como o Samba, Baiao, Afoxé, Umbanda, Jongo, Forro, Makulelê, Maracatu, Samba Reggae, Puxada de Rede, Frevo, danças afros, chulas, corridos, ladainhas, tradições, Candomblé, batuques. Neste sentido podemos admitir que o capoeirista é o maior divulgador da cultura afro-brasileira no mundo. Ele resgata em suas canções as línguas que foram históricamente oprimidas no Brasil, como o tupi, Yorubà, além de divulguar a língua portuguesa e insentivar o turismo, intercambios e encontros.
Os Afro-descencentes precisam cada vez mais fazer, escrever, reescrever sua própia história, seu própio modo de ver o mundo. Niguém é melhor servido do que por si própio, e a liberdade é essencial para criação.
A cultura ocidental em boa parte, quer definir e controlar tudo, porém a Capoeira é arte, não se limita em definição, é energia, música, resistência, liberdade, fé e história de todo um povo, onde quanto mais se pratica e se acumula experiências, mais se aprende, mais podemos integrar e transmitir, informações e saberes, na vadiação.
O capoeirista começa a ter uma postura histórica, de consciência, conhecimento e auto-estima, quando reconhece e assume que a Capoeira veio da Africa, transmetida por africanos no Brasil, nos Quilombos urbanos e rurais.
Axé!
Julio Bomfim
Mestre de Capoeira
site : www.batakorin.com
Source :http://www.comunidadebrasileiranafranca.com/a-capoeira-no-var-mestre-julio-bomfim/